Sal da Terra e luz do mundo


A Igreja Católica no Brasil celebra em 2018 o Ano Nacional do Laicato. A iniciativa, proposta pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), teve início na festa de Cristo Rei, em novembro do ano passado, e se estende até a mesma comemoração neste ano. Um de seus objetivos é aprofundar a identidade dos cristãos leigos e se insere também no contexto dos 30 anos da publicação da Exortação Apostólica Christifideles Laici, do Papa João Paulo II, sobre a vocação e a missão do leigo.

 

Os leigos no Brasil estão inseridos nas mais de 270 dioceses e arquidioceses. Trabalham em mais de 11 mil paróquias e 50 mil centros de atendimento pastoral. Sustentam toda a ação evangelizadora mais de 700 mil catequistas que conduzem pelo caminho da fé os filhos da Igreja. Mais de 100 mil leigos se dedicam como missionários fora de suas comunidades. E mais de 27 mil padres e quase 4 mil diáconos contam com a colaboração deles para levar em frente sua liderança em paróquias, comunidades e áreas missionárias. Pastoreiam o rebanho cerca de 300 bispos que atuam diretamente em suas circunscrições eclesiásticas e a Igreja apresenta sua gratidão aos 170 bispos eméritos que iluminam as comunidades com a sabedoria que só os anos de vida comportam. Esses dados encontram-se no livro Perfil Episcopal da Igreja Católica no Brasil, 1551 a 2018, de autoria do Professor Fernando Altemeyer Junior.

 

A dinâmica do Ano do Laicato se concentra no estudo e na prática das orientações do documento 105 da CNBB intitulado: Cristãos leigos e leigas na Igreja e na sociedade. ‘Sal da terra e luz do mundo” (Mt 5,13-14). Este documento foi fruto da Assembleia Geral da Conferência realizada em 2016 quando seu tema central foi a figura do leigo.

 

Quem é o leigo?
O leigo precisa encontrar sua identidade dentro da Igreja para que sua missão possa se abrir para a sociedade. “O leigo não é menos cristão e nem é de segunda categoria”, diz Dom Orlando Brandes, Arcebispo de Aparecida - SP. “O leigo tem uma vocação específica que é estar no mundo, nos ambientes de trabalho, estudo e lazer. Sua presença consagra a Deus o próprio mundo”, explica Dom Antônio Carlos Félix, Bispo de Governador Valadares - MG.


“No altar da vida escondida com Cristo no cotidiano, o leigo se santifica nos altares de seu trabalho que são: o fogão, a pia, o trator, o bisturi, o computador e diversos outros ambientes”, destaca Dom Orlando.


O cristão leigo não está nas “arquibancadas”, mas é aquele que entra em campo e também tem sua missão, digamos assim, em outros campos. “O leigo é sujeito eclesial ativo, não é decorativo, de enfeite. É alguém que deve ter consciência de sua dignidade de batizado, vivendo aberto ao diálogo e à colaboração com os pastores”, enfatiza Dom Carmelo Scampa, Bispo de São Luís de Montes Belos - GO.


Para Milton Teixeira, que trabalha na área de formação da juventude na Diocese de Paracatu - MG, “a missão do leigo é também acolher e orientar aqueles que estão iniciando a caminhada na Igreja, apresentando a doutrina e os documentos”.


Dom Severino Clasen, Bispo de Caçador - SC, presidente da Comissão Episcopal de Pastoral para o Laicato da CNBB, indica que o Documento 105 convida os leigos a despertar sua consciência missionária. Ele recorda que o Papa Francisco está contribuindo para isso com uma pedagogia que parte da “mística da proximidade, do diálogo e da revolução da ternura para a redescoberta do prazer de ser povo e o despertar da consciência de que a vida de cada pessoa se dá na missão”, elenca Dom Severino.

 

Articuladores da comunhão
Em Florianópolis - SC, Paulo César da Silva, secretário na Paróquia Nossa Senhora da Conceição, afirma: “Tenho prazer imenso em servir a Deus. Estou no Conselho Pastoral da Comunidade a que pertenço e nos relacionamos bem entre nós e com as outras comunidades. A comunhão nos anima”.


O Documento da CNBB não é enfeite de estante da mesma forma que o leigo não o é na Igreja. O texto apresenta orientações práticas para a formação, por exemplo, dos conselhos pastorais que se baseiam em uma eclesiologia de comunhão. A Igreja é um mistério de comunhão fundamentada na dinâmica de comunhão da Santíssima Trindade. Esta visão de Igreja ajuda a criar estruturas de participação e corresponsabilidade como grupos, associações e conselhos.


Adalva Cordeiro de Siqueira Melo, agente de pastoral na cidade de Serra Talhada - PE, sente-se bem participando dos conselhos que ajudam na caminhada de sua paróquia e das comunidades. “Sou feliz por realizar a missão que Jesus me deu de ser sal na Terra e luz do mundo”, relata. Ela destaca a importância dos encontros de formação que a Diocese de Afogados da Ingazeira promove na região pernambucana do Vale do Pajeú. “Vivo a vocação que recebi no meu Batismo. Assumi a missão de leiga com muita vontade e entusiasmo para colaborar com a Igreja”, reforça.


Os bispos e padres devem acompanhar, orientar e respeitar os conselhos que ajudam na organização das comunidades. “A Igreja solicita a participação de cristãos leigos e leigas em conselhos e nas estruturas de organização para administrar profissionalmente e com habilidade os bens e dons das comunidades”, diz Dom Severino.

 

Desafios
O momento atual é propício à presença e à ação dos fiéis leigos na Igreja Católica. Talvez, outros momentos históricos tenham suscitado necessidade de outros perfis vocacionais, mas o atual contexto, marcado pelo Concílio Vaticano II, é de abertura ao leigo e a seu protagonismo. 


Segundo Dom Laurindo Guizzardi, Bispo Emérito de Foz do Iguaçu - PR, durante o Concílio de Trento (1545-1563), a Igreja Católica promoveu o que ficou conhecido como contra-reforma e, para livrar o povo de certas confusões e heresias, organizou seminários para preparar os sacerdotes para bem orientar os fiéis. Com o empenho da formação sacerdotal, “os leigos ficaram de braços cruzados”, afirmou o bispo. Este processo histórico pode ter influenciado para que a atuação do leigo na Igreja fosse tímida.


Por outro lado, na Igreja da América Latina, percebe-se que, historicamente, esta foi constituída por um processo complexo de formação que não contou apenas com a atuação dos bispos, mas também de religiosos de diversas congregações, que exerceram papel fundamental na transmissão da fé aos batizados. E, mais recentemente, os leigos se destacam nessa missão. Juntos, a hierarquia, os religiosos e os leigos compõem, de maneira complexa, a história da Igreja no continente.


“Os leigos são uma força extraordinária. Sem eles, um padre não consegue fazer quase nada em uma paróquia”, lembra Dom Orlando, e este pensamento condensa a proposta do Concílio Vaticano II e a prática da Igreja Latino-americana que sempre foi marcada pela escassez de clero e fidelidade dos leigos por meio das devoções populares.


O Concílio, realizado entre 1962 e 1965, propôs uma nova visão de Igreja como sinal de Jesus no mundo e os fiéis todos como Povo de Deus.


Na Constituição Dogmática Lumen Gentium, os leigos são definidos como “todos os cristãos que não são membros da sagrada Ordem ou do estado religioso reconhecido pela Igreja, isto é, os fiéis que, incorporados em Cristo pelo Batismo, constituídos em Povo de Deus e tornados participantes, a seu modo, da função sacerdotal, profética e real de Cristo, exercem, pela parte que lhes toca, a missão de todo o povo cristão na Igreja e no mundo” (LG 30).


O Ano Nacional do Laicato, mais do que uma comemoração, é uma oportunidade para que os leigos assumam sua missão profética, sacerdotal e real, como explica Dom Severino: “Como profeta, cada cristão é chamado a anunciar pelo testemunho de vida o engajamento social e a Boa Notícia que a Palavra de Deus revela aos homens de hoje; cada fiel, como sacerdote, tem a vocação de ser fonte de bênção nos vários ambientes cotidianos, sobretudo na família e trabalho. Como povo real, somos convocados a contribuir com a coordenação de grupos e exercendo o poder como serviço a quem precisa”.


Meire Gomes de Oliveira é membro da Paróquia Mãe Rainha, na capital do Tocantins, e atua como presidente do Conselho do Laicato na Arquidiocese de Palmas. Ela destaca o caráter vocacional e de serviço do leigo que “colabora com a missão de evangelizar da Igreja, tendo a dignidade de batizado e filho de Deus, buscando sempre a conversão pessoal e a santidade ”. Como meios para a atuação, Meire indica “o serviço por amor e sem submissão, por meio do diálogo com os mais diversos interlocutores, mostrando os valores éticos e cristãos”.


Dentre os documentos do Concílio Vaticano II, surgiu o Decreto Apostolicam Actuositatem sobre a ação pastoral dos leigos. Nessas preciosas orientações, estão indicados os campos específicos da missão dos leigos: a Igreja, como comunidade cristã; a família, como lugar natural e primeiro ponto de atuação; a juventude, que precisa de formação para se desenvolver;  o trabalho social, como ajuda a quem mais precisa; e a inserção na “ordem nacional e internacional”, ou seja, na política e nos organismos da sociedade.


A missão dos leigos está inserida dentro da missão da Igreja que tem como seu centro Jesus Cristo. “É Ele quem de novo os envia a todas as cidades e lugares aonde há de chegar para que, nas diversas formas e modalidades do apostolado único da Igreja, se tornem verdadeiros cooperadores de Cristo, trabalhando sempre na obra do Senhor com plena consciência de que o seu trabalho não é vão no Senhor (cf. 1Cor 15,28)” (AC 34).  


Depois dos avanços do Concílio Vaticano II, percebemos que há também recuos sobre a atuação do leigo. Há uma tímida presença nas universidades, na política, na medicina e nos âmbitos jurídicos, do trabalho e da cultura. “Há também a tendência de valorizar quase que exclusivamente o serviço no interior das comunidades eclesiais”, afirma Dom Antônio. “Por vezes, temos certa inibição da dimensão social da fé e, por isso, a ação evangelizadora fica restrita às pessoas que buscam os Sacramentos”, destaca o Bispo de Governador Valadares.


“Somos gratos pela atuação dos leigos no interior da Igreja, mas ele tem que atingir o coração do mundo. Deve estar nos times e torcidas de futebol, nas associações de bairro e nos ambientes de trabalho”, afirma Dom Orlando, que enfatiza: “A presença atuante dos leigos e leigas na sociedade pode gerar uma revolução no Brasil”.


Suely das Graças de Carvalho Paiva, moradora de Manaus - AM, realiza seu trabalho com carinho e dedicação nas comunidades. “Sempre digo que recebo mais do que doei. O trabalho pastoral traz alegrias e nos faz muito bem. Para mim, traz mais união para a família. Com o engajamento de todos na caminhada da Igreja, podemos superar muitos problemas da sociedade, como a violência”, expressa Suely.

 

No livro A evangelização no presente e no futuro da América Latina, seu autor, o jesuíta Padre João Batista Libânio, explica a forma como a Igreja Católica assumiu o compromisso de dialogar com a sociedade. “A Igreja na América Latina quer assumir responsavelmente seu papel de contribuir para a transformação desde dentro das estruturas da sociedade pluralista atual, a partir do anúncio da Boa-Nova e do apelo a uma conversão radical. A Igreja reconhece seu papel de exortar os construtores da nova sociedade, de fazê-lo com o povo, oferecendo cada grupo sua contribuição própria. Cabe-lhe também o papel de ser agente de conscientização geral da responsabilidade comum diante do desafio que exige a participação de todos”.

 

Perfil mariano da Igreja
O Documento 105 trata também do perfil mariano da Igreja. No número 114, lê-se: “Este perfil mariano é, para a Igreja, tão fundamental e característico – senão muito mais – que o perfil apostólico e petrino, ao qual está intimamente ligado. A dimensão mariana da Igreja precede, neste sentido, a dimensão petrina ainda que lhe seja intimamente unida e complementar. Maria precede Pedro e os Apóstolos. Ela é santa e rainha dos Apóstolos, que são pecadores. Maria é figura da Igreja. Ela precede todos no caminho rumo à santidade. Na sua pessoa a Igreja já atingiu a perfeição”. “A reflexão sobre o perfil mariano da Igreja abre muitos horizontes e oferece luzes para maior e melhor compreensão do ser e da missão dos leigos e leigas no seio do povo de Deus. Em Maria, mulher leiga, santa, Mãe de Deus, os fiéis leigos e leigas encontram razões teológicas para a compreensão de sua identidade e dignidade no povo de Deus”, indica o parágrafo seguinte. 


Esse conceito de perfil foi definido pelo teólogo suíço Urs Von Balthasar (1905-1988) segundo o qual existem cinco perfis diferentes de atuação na vida cristã. O petrino, por exemplo, está ligado à figura de São Pedro, o apóstolo que era líder do grupo. Hoje, assumem o perfil petrino os membros da hierarquia que trabalham para que a Igreja seja também uma instituição capaz de transmitir o Reino de Deus.


O perfil mariano, segundo Balthasar, está ligado a Maria e representa os leigos porque Maria, na sua vida cotidiana, na missão de mãe e na presença orante nos primeiros passos da Igreja, teve atuação discreta e importante. Para Balthasar: “Maria é Rainha dos apóstolos e não reivindica para si os poderes apostólicos. Ela possui outros e muito mais”.


Para Dom Carmelo, o perfil mariano é próprio da comunidade cristã. “Mariano e petrino não se contrapõem, mas se integram. O perfil mariano é misericórdia e abraço e deve ser traduzido no agir da Igreja”, afirma.


Maria personifica a Igreja e é um perfil de unidade entre os outros. O perfil mariano da Igreja se relaciona com outros perfis, mas está mais próximo à vivência dos leigos. Não está em atrito com outros perfis e nem com o ministério ordenado. É uma visão de Igreja que se completa como que em um abraço.


A devoção a Maria ajuda no relacionamento filial com Deus. “Ela é mãe e modelo da Igreja e ajuda os leigos a compreenderem o chamado de Deus para fazer de suas vidas um serviço aos irmãos e irmãs”,  lembra Dom Severino.


Nós, com Maria, devemos levar um pouco de claridade para a escuridão dos dias atuais. Pelo testemunho dos leigos nos diversos ambientes, incluído o eclesial, é necessário levar a luz de Cristo para as pessoas que estão com o coração obscurecido pelo relativismo, pelo subjetivismo e pela autorreferencialidade.


Maria teve sua vida com sentido completo e que se completa na Igreja. Ela nos inspira e auxilia a fazer com que o perfil mariano abrace o petrino e também aos que não creem. Maria, mulher, leiga, tem tudo e muito mais porque tem a única coisa à qual se deve dar fé: o amor.


 

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